Valor Econômico

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Ações das usinas disparam com valorização do açúcar:

Desde que começou a primeira safra mundial de açúcar em que a produção foi inferior ao consumo após cinco ciclos com oferta de sobra, não apenas os preços da commodity dispararam como as ações das companhias produtoras no Brasil também avançaram, superando o desempenho médio das demais companhias de capital aberto na BM&FBovespa e, em alguns casos, alcançando máximas históricas.

Desde o início do ciclo internacional 2015/16, em 1º de outubro do ano passado, até o fim, em 30 de setembro, as ações da Cosan (que controla 50% da Raízen) subiram 93%, as da Biosev registraram valorização de 71% e as da São Martinho, de 52%. No caso da Tereos, que fechou o capital no mês passado, as ações subiram 218% do início do ciclo até 26 de setembro, mas as negociações também foram influenciadas pelo processo de oferta pública de aquisição (OPA), anunciada no ano passado.

As escaladas superaram com folga a alta do Ibovespa no período (29%) e continuaram a ganhar força neste mês, conforme o Valor Data. No intervalo, os preços do açúcar subiram 79% na bolsa de Nova York.

As ações da Cosan tiveram uma sequência de recordes e alcançaram R$ 41,45, superando a última máxima dos papéis, observada em meados de 2013, quando a empresa começou a negociar a fusão da Rumo com a ALL.

É evidente que essa evolução não pode ser atribuída somente ao negócio de açúcar e etanol – tocado pela joint venture com a Shell, a Raízen Energia -, uma vez que a Cosan também tem negócios de distribuição de combustíveis, gás e logística. Mas os resultados apresentados pela área aparecem com destaque nos resultados da companhia e nas avaliações dos analistas.

Paula Kovarsky, diretora de relação com investidores da Cosan, ressalta que, além de impulsionado pela alta do açúcar, o desempenho das ações também está relacionado a decisões estratégicas como a busca por ganho de participação no mercado de combustíveis, através da Raízen Combustíveis, e a otimização operacional da Raízen Energia, com a regionalização da gestão das usinas e investimentos em “inteligência logística”.

“Nós aproveitamos o ciclo continuado de baixa para fazer um dever de casa muito criterioso, para melhorar os retornos mesmo quando o preço não estava tão bom”, afirmou. Paula acrescentou que a política de desalavancagem, adotada há pouco mais de um ano, também é um “componente importante” para os resultados.

Em 30 de setembro, a Cosan também acertou a venda de parte de sua participação na empresa de terras Radar à sócia Mansilla por R$ 1 bilhão, e esses recursos serão utilizados para continuar a reduzir a alavancagem e pagar dividendos. Desde o anúncio da venda, os papéis da companhia subiram 9,9%.

O fato da transação ter sido feita pelo valor patrimonial líquido foi considerado por analistas como um fator positivo para a Cosan, já que vendas desse tipo costumam ocorrer com desconto.

A notícia também foi bem recebida por outras empresas do segmento que possuem terras. É o caso da São Martinho, que possui terras avaliadas em R$ 2,9 bilhões. “Com o valor de venda da Cosan, o mercado entende que as terras efetivamente valem aquilo que está no laudo”, disse Filipe Vicchiato, diretor financeiro da São Martinho.

Na safra global 2015/16, os papéis da São Martinho subiram 52%, mas a arrancada se deu nos últimos meses, já que as exportações só aceleraram com o avanço da safra no país, explicou o executivo.

Em 13 de outubro, os papéis ordinários da empresa atingiram a máxima histórica de R$ 62,36. Segundo um analista que acompanha a área, a São Martinho tem sido uma “referência” para o segmento por causa de seu desempenho operacional.

As ações de Biosev, controlada pela multinacional francesa Louis Dreyfus Company, também acumularam alta expressiva na safra global 2015/16, mas o comportamento foi diferente ao longo do ciclo. Os papéis começaram a temporada em R$ 4,95. Pelo preço ser bem menor que das outras empresas e pela baixa liquidez, as ações a mais que duplicarem de valor até o fim de julho. De lá até 30 de setembro, porém, houve recuo 29,2%.

Segundo analistas consultados pelo Valor, os papéis da Biosev foram afetados pelos resultados do primeiro trimestre da safra brasileira 2016/17, de abril a junho. Após dois trimestres seguidos de lucro, a companhia teve prejuízo de R$ 353,3 milhões e sua dívida líquida ficou maior que no mesmo período do ano anterior (R$ 5,5 bilhões).

Os analistas observam que o endividamento elevado, concentrado em moeda estrangeira em um cenário em que o dólar ainda está mais valorizado do que em 2015, continua provocando gastos elevados com pagamento de juros, consumindo o caixa da empresa e dificultando a desalavancagem.

A situação, porém, já esteve mais apertada, já que no fim do primeiro trimestre a dívida em dólar representava 75% da dívida bruta total, contra 77% no trimestre anterior. Procurada, a empresa preferiu não conceder entrevista sobre o assunto.

Mesmo companhias que têm capital aberto fora do país também estão sendo beneficiadas pela alta do açúcar. A argentina Adecoagro, que possui três usinas no Brasil, viu suas ações subirem 43% na bolsa de Nova York durante a safra global 2015/16. Os papéis da indiana Shree Renuka Sugars, que controla quatro usinas no Brasil, avançaram 113% no período na bolsa de Mumbai. A exceção é a espanhola Abengoa, que controla três usinas no Brasil. Com foco no mercado de energia elétrica, a empresa tem enfrentado dificuldades e está em recuperação judicial na Espanha. Na bolsa de Madri, suas ações recuaram 73% na safra 2015/16.

Para o curto prazo, analistas observam que o desempenho operacional das usinas pode ser afetado, ainda que pouco, pela redução dos preços da gasolina anunciada pela Petrobras. Analistas consultados preveem que a queda de preços da gasolina nos postos – e a consequente perda de competitividade do etanol – pode ter impacto negativo de 1% sobre o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) das usinas com capital aberto na safra brasileira 2017/18.


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