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Pressão de energia e petróleo:

Baixo nível dos reservatórios de hidrelétricas e corte de produção da Opep podem ter impacto inflacionário e comprometer a queda de juros

O ciclo de queda nos juros pode não ser nem tão longo nem tão agressivo quanto o esperado. Isso porque, apesar de a inflação ceder momentaneamente, há dois fatores que podem pressionar o custo de vida a médio e a longo prazos: energia elétrica e combustíveis. Os dois insumos, quando majorados, têm impacto inflacionário em todas as cadeias produtivas, porque garantem a fabricação e o transporte de produtos. Portanto, dizem especialistas, a redução nos juros deve ser cautelosa, porque a carestia está longe de estar controlada no país.

Para o professor de Economia do Ibmec de Belo Horizonte, Felipe Leroy, o quadro preocupa. “O Brasil não tem uma matriz energética diversificada e a situação hidrológica não é confortável, sobretudo no Nordeste. E a energia tem peso significativo na inflação”, explicou. Os combustíveis também têm um peso que é transferido para os produtos por meio dos fretes e das termelétricas a óleo diesel, lembrou o economista.

A Petrobras, recentemente, reduziu o preço da gasolina e do óleo diesel nas refinarias, mas, além de a queda não ter chegado à bomba em todos os estados brasileiros, a companhia abriu as portas para aumentar os valores, ao implementar uma política de preços alinhada com o mercado internacional. Com a redução, o prêmio pela diferença de valores praticados internamente caiu para 12% na gasolina e 24% no óleo diesel, segundo cálculos do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie).

A grande questão é que o secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), Mohammed Barkindo, confirmou a decisão do grupo de cortar a produção da commodity para elevar os preços no mercado mundial. O barril já vem subindo sistematicamente por conta dos anúncios da Opep, tanto que está acima de US$ 50, após ter ficado numa média de US$ 42 ao longo do ano. A ideia do cartel, que se reúne em novembro, é retirar 1 milhão de barris por dia dos mercados. Com isso, os preços devem chegar a US$ 70 em 2018.

“Há quem acredite que o barril atinja US$ 60 já no fim deste ano. Com isso, o prêmio da Petrobras vai a zero e, dependendo do câmbio no período, pode até virar defasagem. Vai ser o grande teste da nova diretoria da estatal”, avaliou Adriano Pires, diretor do Cbie. Como a nova política de preços prevê reuniões a cada 30 dias para alinhar os preços com o mercado internacional e o encontro da Opep é em novembro, “é possível que a Petrobras aumente a gasolina e o diesel em dezembro”, estimou Pires.

Paralelamente, as regiões Nordeste e Centro-Oeste passam por grave crise hídrica, o que pode elevar o custo da energia elétrica a partir de novembro. Como a bandeira tarifária é nacional e qualquer elevação no custo regional poderia ter impacto em todo o país, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) decidiu permitir a variação isolada por região do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), custo da energia no mercado à vista.

Bandeiras

De acordo com despacho publicado no Diário Oficial da União, o órgão regulador vai usar o volume efetivo de água que chega aos reservatórios da Bacia do Rio São Francisco para calcular o custo de energia no mercado à vista, ambiente onde atuam indústrias e grandes consumidores. Até agora, os modelos de preços não refletiam as mudanças na operação feitas por causa da situação hidrológica. A atualização será feita conforme as recomendações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o que pode elevar o custo da energia no Nordeste.

Para os especialistas, no entanto, o impacto deve chegar ao bolso de todos os consumidores. Isso porque o PLD é um dos principais itens que define o sistema de bandeiras tarifárias. Quando o custo da energia no mercado à vista ultrapassa R$ 211 por megawatt-hora (MWh), é acionada a bandeira amarela, que adiciona R$ 1,50 a cada 100 quilowatt-hora (kWh) de consumo.

Quando esse preço supera os R$ 422, vigora a bandeira vermelha, que acrescenta R$ 3 a cada 100 kWh. Se todo o parque de usinas térmicas é ligado, o segundo patamar vermelho tem custo extra de R$ 4,50. Atualmente, o PLD está em 193,41/MWh no conjunto das regiões. “A decisão é mais uma gambiarra no sistema elétrico, que está longe de ter recuperado um modelo consistente”, afirmou um especialista que prefere não se identificar. Segundo ele, a decisão do governo de ter marcado um leilão A-1 para este ano é um sintoma de reação da economia. “Agora, risco hidrológico com maior consumo vai ser um problema, ainda mais com esse movimento, que já começou, de segurar preços de energia”, alertou o especialista.


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