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Alerta climático:

Aumento nas emissões de CO2 motivado por desmatamento no país preocupa ambientalistas

-RIO E SÃO PAULO- Um relatório divulgado ontem, às vésperas de o Acordo de Paris entrar em vigor, mostra que o Brasil não está fazendo o dever de casa para reduzir o lançamento de gases nocivos na atmosfera e frear as mudanças climáticas. De acordo com dados do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, as emissões nacionais no meio ambiente em 2015 subiram 3,5% na comparação com 2014.

Segundo o levantamento, o Brasil emitiu no ano passado 1,928 bilhão de toneladas brutas de CO2 equivalente (a soma de todos os gases de efeito estufa convertidos em dióxido de carbono), contra 1,862 bilhão de toneladas em 2014. O principal motivo para esse aumento foi o avanço do desmatamento, que, no jargão das análises climáticas, é chamado de mudança do uso da terra. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que, só na Amazônia, o desflorestamento cresceu 25% em 2015. De acordo com o relatório do SEEG, as emissões causadas pela prática, considerando todos os biomas brasileiros, cresceram 12%.

A devastação florestal avançou tanto que impediu uma queda nas emissões, que poderia ser esperada após um ano de crise em que o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 3,8%. Graças à retração, o setor de geração de energia — segunda maior fonte de emissões da economia brasileira — registrou queda de 5,3% nas emissões em relação a 2014. Foi a primeira vez desde 2009 que as emissões do setor de energia caíram, mas em ritmo insuficiente para compensar o aumento provocado pelo desmatamento.

NECESSIDADE DE MUDANÇAS DRÁSTICAS
O quadro acende um alerta para o Brasil, que, no Acordo de Paris, acertado em dezembro de 2015, assumiu o compromisso de reduzir suas emissões em 37% até 2025 e em 43% até 2030, sempre usando como referência os níveis de 2005. O acordo entra em vigor na primeira semana de novembro.

— O Brasil ainda destrói mais florestas do que qualquer outro país do mundo. O aumento de desmatamento preocupa, pois há indícios de que voltará a subir em 2016, o que poderia significar uma reversão da tendência de queda — disse o ambientalista Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima. — Tirar o acordo do papel exige mudar drasticamente o rumo do nosso desenvolvimento, mas não é o que estamos vendo. As emissões de energia caíram, mas o risco de voltarem a subir rapidamente quando o país sair da recessão é enorme, dada a aposta nos combustíveis fósseis.

Nos demais setores — processos industriais, agropecuária e resíduos — as emissões de gases estufa não variaram significativamente em relação a 2014. Os dados do SEEG mostram que, no Brasil, diferentemente da maioria dos países, as emissões nem sempre respondem aos humores da economia. Em 2013, os lançamentos de CO2 na atmosfera cresceram 8%, mesmo com a estagnação. Em 2014, caíram 4%, na esteira da queda de 18% do desmatamento na Amazônia — mas com forte aumento no setor de energia, devido à seca que fez o governo acionar termelétricas fósseis, o que não compensou a subida do ano anterior. No ano passado, as emissões subiram em plena recessão.

— Nos países desenvolvidos e até em grandes países em desenvolvimento, como a China, há um descolamento entre PIB e emissões: a economia cresce com emissões estáveis ou em queda. No Brasil isso não acontece. É preocupante, porque rumamos para 2020 com emissões em alta e não numa trajetória consistente de redução — afirma André Ferretti, coordenador-geral do Observatório do Clima.

Desde 2005, quando o país começou a combater de forma mais efetiva o desmatamento na Amazônia, as emissões da agropecuária aumentaram 9%, as de energia, 45% e as de resíduos e processos industriais, cerca de 23% — o que praticamente anulou a redução no setor de uso da terra. Hoje, o nível de emissões está no mesmo patamar de 2010, quando o Brasil começou a implementar as metas com as quais se comprometeu em Copenhague, de redução de 36% a 38%.

— O Brasil teve um período singular de queda de 2005 a 2010 e, desde então, estamos patinando, com emissões totais estabilizadas há seis anos e com forte aumento no setor de energia — disse Tasso Azevedo, coordenador do SEEG. — Hoje temos de reduzir o desmatamento pela metade para cumprir a meta de Copenhague, mas em vez disso ele está aumentando.

Diretor do Departamento de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Adriano Santiago afirma que ainda não viu o relatório, mas minimiza os resultados. Segundo ele, os dados analisam apenas um período curto. Santiago criticou ainda a metodologia adotada.

— No estudo são consideradas apenas as emissões brutas. O próprio Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) considera também o quanto de CO2 as florestas removeram. Se entrar esse balanço líquido talvez nem haja crescimento nas emissões — defende. — Dados de um ano para outro não acendem um alerta vermelho. De 2005 a 2012, o Brasil reduziu 41%.

Em relação à alta nos índices de emissões relacionadas ao desmatamento, Santiago destaca que o governo está atento e lançará medidas de redução.

— Devemos lançar até o início de 2017 a quarta fase do plano de políticas de controle do desmatamento na Amazônia, incorporando os compromissos que o Brasil assumiu em Paris — garante.


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