Correio Braziliense

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Category : Notícias

O Acordo de Paris e as Itaipus nos canaviais (Elizabeth Farina e Zilmar de Souza):

Elizabeth Farina – Presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica)
Zilmar de Souza – Gerente de Bioeletricidade da Única

A COP21 (21ª Conferência das Partes), ocorrida em dezembro de 2015, foi marcada pela edição do chamado Acordo de Paris, que objetiva limitar o aumento da temperatura no globo terrestre a um máximo de 2ºC até 2100, com cada país assumindo compromissos que contribuam para tal meta. Em setembro último, o governo brasileiro ratificou o Acordo de Paris. Agora, devemos planejar sobre como tirar do papel mecanismos para cumprir as metas de redução de emissões de gases assumidas até 2030 dentro da matriz energética.

O setor sucroenergético brasileiro poderá contribuir decisivamente em pelos menos três metas: (a) aumentar a participação de bioenergia sustentável na matriz energética para aproximadamente 18%, expandindo o consumo de biocombustíveis, com maior oferta de etanol; (b) aumentar o uso sustentável de energias renováveis (solar, eólica e biomassa) para ao menos 23% da geração de eletricidade do Brasil; e (c) alcançar 10% de ganhos de eficiência no setor elétrico.

Do lado da matriz de combustíveis, a meta (a) indica boas oportunidades para a expansão do etanol. Estima-se que, para cumpri-la, o país terá que produzir 50 bilhões de litros de etanol carburante em 2030 – atualmente, este volume é de 28 bilhões de litros. No caso da matriz elétrica, a biomassa sucroenergética para geração de eletricidade (a chamada bioeletricidade) também se destaca.

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), para cumprir a meta (b) estima-se que a produção de bioeletricidade, eólica e solar, cresça 417% até 2030, em relação a  2014. Isso significa aumentar a produção em 221 TWh no período, ou seja, acrescentar 2,5 Itaipus ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

A usina Itaipu é a líder mundial em produção de energia, tendo sua obra civil começada no início da década de 1970 e a completa motorização somente em maio de 2007. Mesmo que o estudo da EPE indique um crescimento econômico de 3,5% ao ano em média entre 2014 e 2030, o documento traduzido em Itaipus dá uma dimensão da esperada expansão na produção de energia pelas fontes de biomassa, eólica e solar até 2030, objetivando cumprir o Acordo de Paris.

Nessa tarefa hercúlea, temos um recurso energético ainda distante de seu pleno aproveitamento: a geração de eletricidade por meio do bagaço e da palha da cana e do biogás a partir da vinhaça (resultado da produção de etanol). De acordo com o último Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2024), considerando o aproveitamento pleno da biomassa (bagaço e palha) existente nos canaviais em 2015, a geração de bioeletricidade para a rede tem potencial técnico para chegar a mais de seis vezes o volume de oferta em 2015. Nesse cenário, sem contar a expansão dos canaviais e do biogás, somente a biomassa (bagaço e palha) existente poderia acrescentar 1,2 Itaipu ao Sistema Nacional. A produção de biogás a partir da vinhaça também é um importante potencial para geração de eletricidade. Em motogeradores, é possível produzir o equivalente a 7% da produção anual da usina Itaipu.

Por fim, temos a contribuição que podemos dar à meta de atingir 10% de ganhos de eficiência no setor elétrico até 2030. Até meados deste ano, segundo a EPE, existiam 175 unidades sucroenergéticas exportando excedentes de bioeletricidade para a rede de um universo de 370 unidades produtoras. Assim, há 195 usinas que, com uma biomassa já existente nos canaviais, podem passar por um processo de reforma (retrofit), tornando-se não somente grandes geradoras de bioeletricidade para a rede, mas também eficientizando o consumo de energia exigido na produção de etanol e açúcar e na entressafra.

Em resumo, há uma oportunidade sem igual para um posicionamento da bioeletricidade sucroenergética na matriz elétrica brasileira. Para isso, é o momento de uma estratégia nacional de adoção de medidas que promovam sua competitividade: reconhecimento das externalidades positivas no preço dos leilões regulados, incluindo mecanismos de regularização de contratação e um planejamento energético concatenado entre etanol e bioeletricidade, dentre outras medidas. Tornar efetivas propostas adequadas para a bioeletricidade fortalecerá também a competitividade do etanol, ajudando a viabilizar a retomada do crescimento do setor sucroenergético. Revitalizar a expansão da bioeletricidade é ter visão estruturante de matriz energética do país, em linha com o esforço assumido para combater o aquecimento global.


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