Folha de S. Paulo

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Análise – Para chegar à agroindústria 4.0, é preciso explorar dados:

O tema da hora, para quem não tem olhos só para Lava Jato e Donald Trump, é a tal de Quarta Revolução Industrial. Ou indústria 4.0, para os iniciados, que no entanto ainda não conseguiram conquistar o devido espaço no debate nacional.
Muito superficialmente, trata-se de mobilizar o acúmulo de dados e a crescente capacidade de processamento e análise das informações nas nuvens digitais para impulsionar a produtividade e a precisão na manufatura e nos serviços.

Parece coisa de ficção científica, num país em que muitas empresas ainda acham que mercados se conquistam cultivando amizade com o rei, superfaturando contratos entre barões e distribuindo propinas na Corte. Ou achavam.

O que pode e deve fazer o Brasil nesse cenário em transformação?

O país parte de uma posição ruim nessa corrida. A crise social, política e econômica que atravessa criou uma enorme ociosidade e drenou recursos e incentivos para aumentar a produtividade.

Considere-se a indústria de base, tradicional esteio das políticas de desenvolvimento por aqui, como no exemplo da siderurgia. Segundo o estudo que William Wills e Shigueo Watanabe produziram para o Instituto Escolhas, “Perspectivas para a Indústria no Brasil”, sua capacidade ociosa está em inéditos 40%, mesmo após a desativação de seis altos fornos.

O país é capaz de produzir 50 milhões de toneladas anuais de aço. No mundo há sobra de 700 milhões de toneladas, 400 milhões apenas na China. Não parecem boas as chances de competir nesse mercado, em especial quando se tem de arrastar o peso morto do chamado custo Brasil.

Um setor em que o país conta com muitas vantagens competitivas é a economia de base natural, agronegócio à frente, graças à grande disponibilidade de sol, água e terras. Em vez de tratar aqui de soja, cana, milho ou algodão, porém, tome-se o caso de papel e celulose.

Com o perdão de ambientalistas que ainda veem no eucalipto uma praga, cabe destacar que sua produtividade em solo brasileiro é a mais alta do mundo. “O país é o quarto maior produtor de celulose, atrás de EUA, China e Canadá, mas o custo de produção aqui é quase a metade do custo naqueles países”, afirmam Wills e Watanabe no relatório.

Embora já utilize considerável base tecnológica, como boa parte do agronegócio brasileiro, o setor ainda tem espaço para novos saltos com recurso mais intenso às ferramentas da digitalização.

PRECISÃO

Por que não pensar numa agricultura 4.0 usando dados de solo, água e clima na plantação? Segundo Watanabe, isso já é feito com vários cultivos, eucalipto e pinho incluídos, mas ainda numa escala bem maior que a do metro quadrado.

O Brasil conta com a Embrapa para refinar ainda mais essas tecnologias, que indicariam com precisão o plantio dos clones mais adequados no momento mais favorável, com base em dados de clima e condições do solo, assim como o micromanejo da irrigação por gotejamento e de fertilizantes ou defensivos.

Pode-se sonhar até com sensores para coletar dados físico-químicos das árvores.

Na outra ponta, as fábricas de papel, já muito automatizadas desde os anos 1980, poderiam conectar-se em redes de informação com a produção de árvores e com o mercado consumidor.

Passariam a fazer um ajuste constante do que produzir com base na demanda monitorada em tempo real -por exemplo, papéis de embalagem customizados.

Esse é só um exemplo, não a salvação da pátria. E, se a produção se expandisse à custa da abertura de novas áreas com desmatamento, ou desalojando pequenos produtores da agricultura familiar, redundaria no oposto do benefício socioambiental que se almeja com a Quarta Revolução.

O correto seria recorrer às florestas plantadas só nas áreas liberadas pela intensificação da pecuária. Esta, de resto, ainda está na era 1.2 (média aproximada de cabeças por hectare no país).

Há muitas modalidades de atraso no Brasil. Para superar a crise que é nossa e acertar o passo com o ritmo do mundo será preciso pensar mais e melhorar o rumo a seguir em cada setor. Repetir as fórmulas desgastadas do velho desenvolvimentismo não vai dar conta do desafio


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