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Energia: futuro traz preocupações:

Crise econômica adiou a crise energética, dando ao País a oportunidade de se preparar. Especialistas defendem mais eficiência na utilização

O Brasil escapou por muito pouco de um aprofundamento da crise energética. A má notícia é que isso aconteceu por conta de crise econômica. Com a recessão, a economia como um todo pisou no freio, reduzindo o consumo e, assim, afastando o risco de apagão vivido há dois anos. Agora a perspectiva de melhora na economia traz de volta o problema.

De acordo com Guilherme Mendonça, vice-presidente sênior da divisão Energy Management da Siemens no Brasil, se nada for feito, uma nova crise energética tem data e hora para chegar. Ele lembra que o Brasil possui uma sobra estrutural de energia de 10% causada pela recuperação hídrica, provocada pelas chuvas, ao mesmo tempo em que a crise econômica reduziu o consumo.

“O setor elétrico brasileiro não entrou em colapso porque a economia entrou em colapso primeiro. A gente pode passar à situação esdrúxula de conseguir passar por essa situação econômica gravíssima do País e parar na porta de novo da crise elétrica”, diz.

Pablo Becker, diretor da CPFL Energia, vai mais longe e diz que, mesmo hoje, existem na região Nordeste reservatórios caminhando para 20% de sua capacidade. Isso significa que, se o risco de um apagão geral está afastado, o mesmo não ocorre em algumas regiões do País. “Há o risco de termos apagões localizados porque as empresas não terão como atender a demanda”, avalia.

PRECAUÇÕES

Para os especialistas, o País precisa aproveitar este período de baixo consumo para tomar uma série de medidas que tragam mais eficiência e inteligência ao consumo. Um exemplo é a utilização de energia na indústria. Mendonça, da Siemens, lembra que o parque industrial brasileiro é, em média, quatro vezes mais velho do que o de países desenvolvidos. “Os empresários sabem disso, mas falta capacidade de investimento e segurança para que esses investimentos sejam feitos”, diz.

O executivo ressalta que a eficiência energética na área industrial é uma questão de sobrevivência, mas lembra que o empresário brasileiro tem outras questões de sobrevivência mais críticas. “Ações para adoção de novas tecnologias custam dinheiro e, se o empresário não tem esse dinheiro, vai deixar como está. O empresariado tem consciência da necessidade, mas falta capital para fazer”, declara.

De todo modo, começam a surgir algumas iniciativas que devem frutificar no futuro. A própria CPFL, por meio da CPFL Eficiência, vende soluções para que seus clientes encontrem formas mais eficientes de consumo. “Temos um cliente que reduziu seus custos em 27% utilizando painéis solares e otimizando o uso de ar-condicionado e iluminação”, comenta Becker.

O fato é que investir em eficiência é o melhor caminho, e também o mais barato. De acordo com Mendonça, há estudos que demonstram que gerar 1 MW custa o dobro do necessário para economizar o mesmo volume de energia. “A energia mais barata é aquela não utilizada”, diz, lembrando que apostar em eficiência poderia economizar até 20% dos investimentos realizados atualmente em geração.

Ele destaca que os investimentos precisam retornar para que o Brasil tenha segurança energética, e devem ser feitos não apenas na expansão da geração, mas também na economia. “Precisamos ter metas de quanto nossas empresas devem economizar. O Brasil possui uma necessidade brutal de aumento de eficiência”, afirma. E ainda ressalta que essa economia deve vir não apenas de novas tecnologias, mas de novas atitudes. “Apagar a luz em ambientes que não estão sendo utilizados economiza mais do que trocar as lâmpadas antigas por novos modelos”, compara.

Do lado governamental, o Brasil apresentou durante a COP 21 sua Contribuição Nacionalmente Determinada (intended Nationally Determined Contribution – iNDC), que inclui a meta absoluta de reduzir em 43% as emissões de gases de efeito estufa até o ano de 2030 e, de forma escalonada, diminuir 37% até 2025, com base nas emissões do ano de 2005. Tais objetivos impactam diretamente o segmento energético e exigem claramente um aumento da utilização de fontes alternativas e sustentáveis e, principalmente, melhor gestão dos recursos exixtentes.

“Temos um cliente que reduziu seus custos em 27% utilizando painéis solares e otimizando o uso de ar-condicionado e iluminação”
PABLO BECKER, diretor da CPFL Energia


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