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Mudança de hábitos:

Mesmo com altas temperaturas de verão, brasileiro busca reduzir consumo de energia

Num verão em que a sensação térmica no Rio chegou a 48,6° Celsius, a crise econômica e o aperto no orçamento estão funcionando como um freio no consumo de energia. Na avaliação do economista André Braz, da Fundação Getulio Vargas (FGV), a alta nos preços “disciplinou” consumidores e empresas. Isso porque a queda de 10,66% dos preços da energia elétrica em 2016 não foi suficiente para aliviar o aumento de 49% acumulado entre 2013 e 2015. No mesmo período, a inflação como um todo, medida pelo IPCA, acumulou alta de 24,7%.

— A energia é um serviço do qual o consumidor pouco abre mão, mas a alta de preços acaba disciplinando as pessoas. Não só pelas tarifas altas, mas também pela introdução de tributos como iluminação pública e bandeira tarifária — disse Braz.

Segundo cálculos da consultoria Thymos Energia com base em dados do Operador Nacional do Sistema (ONS), o consumo médio de energia elétrica nos 16 primeiros dias do ano ficou em 65.819 Megawatts (MW) médios, um pouco acima do dos 62.249 MW médios registrados em dezembro. Apesar do aumento, que o presidente da consultoria, João Carlos Mello, considera pontual, analistas avaliam que o consumo de energia do país se mantém praticamente estagnado nos mesmos patamares de 2013, antes da crise econômica.

— Dá para perceber que os valores estão estagnados desde 2013-2014. A situação do abastecimento está confortável, não há risco de problemas, porque a demanda caiu muito. A recessão está fazendo com que, neste verão, os níveis de consumo se aproximem dos de 2013. A tendência é que a carga (demanda) se mantenha ao longo do ano num perfil semelhante ao de 2013, na faixa de 63 mil MW médios — afirmou Mello. RODÍZIO DE AR-CONDICIONADO No salão de beleza Milzana Azevedo, em Niterói, o primeiro passo foi fazer um mapeamento das despesas. Segundo Almir Azevedo, responsável pela administração, o objetivo era reduzir custos e compensar a redução no movimento de clientes:

— Todas as lâmpadas foram trocadas pelas de LED e passamos a fazer a manutenção dos aparelhos de ar condicionado mais frequentemente. Além disso, nossa voltagem passou a ser 220 volts.

A ginástica do orçamento inclui a checagem constante para evitar que todas as luzes e os cinco aparelhos de ar condicionado fiquem ligados ao mesmo tempo.

— A gente procura coordenar o funcionamento dos aparelhos para determinados horários. Isso ajudou a diminuir em quase um terço o nosso consumo de energia — disse.

De acordo com Braz, a recessão influencia o consumo de ao menos duas formas: nas empresas, reduz a produção e aumenta a capacidade ociosa, o que diminui a demanda por energia. Nas famílias, reduz o espaço no orçamento doméstico. Só em 2016, o rendimento do trabalho caiu de R$ 2.305, em janeiro, para R$ 2.029, um tombo de 11,9%, já considerando a inflação, segundo os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE.

O economista observa que isso acaba gerando um efeito cultural: uma vez cortado, o consumo de energia tende a ficar mais baixo, por causa da mudança de hábitos. Situação semelhante, destaca, ocorreu após o racionamento no início dos anos 2000, quando o brasileiro começou a incorporar medidas de eficiência energética.

A pet shop e clínica veterinária República Animal diminuiu o consumo de energia. Em janeiro, a queda foi de 22,3% em relação a igual mês do ano passado.

Débora Gondim Mannarino, sócia-proprietária, diz que conseguiu reduzir o consumo em itens como cafeteira, ventiladores e trocou o ar-condicionado por um aparelho mais econômico. A demanda um pouco menor com a crise também contribuiu para reduzir o consumo, conta Débora:

— Para o nosso negócio, é muito complicado reduzir energia. Temos três secadores, dois sopradores, que consomem da mesma forma que aspiradores de pó, e ar-condicionado na sala de tosa e banho. Nossa voltagem é de 220 volts para diminuir o consumo. No auge da alta, nossa conta subiu 40%. Agora, diminuiu um pouco, mas acredito que a bandeira verde também tenha ajudado.

Na clínica, medidas de economia também foram intensificadas, como sempre desligar o ar-condicionado quando as salas não estão em uso. O consumo caiu de 2.451 KW/h em janeiro do ano passado para 1.901 KW/h neste mês.

— A queda reflete dois fatores: nossas medidas de economia e o movimento um pouco menor — explicou Débora.

Para o economista e professor do Ibmec Gilberto Braga apesar da queda no valor da tarifa de energia elétrica no ano passado, a conta de luz ainda pesa no orçamento do brasileiro. Dessa forma, a população foi obrigada a modificar hábitos:

— Em 2015, a conta de luz aumentou significativamente. As pessoas foram obrigadas a se acostumar a economizar. Elas viram que valia a pena investir em eletrodomésticos mais modernos, que consomem menos energia, e, em alguns casos, até em placas fotovoltaicas (para energia solar).

Na lavanderia Lav&Cia, a conta caiu, mesmo sem medidas de contenção ou reestruturação de gastos. Segundo Carlos Pacheco, o fator principal foi a procura menor pelo serviço.

— Infelizmente, o movimento caiu bastante e, com isso, nossa conta de luz teve queda de 15% a 20%. Até conseguimos adiar um reajuste nos preços dos serviços — disse Pacheco.

No período de férias, até os shopping centers — destino tradicional de quem busca se distrair com as vitrines e fugir das altas temperaturas — buscaram reduzir a conta de luz. Segundo o superintendente do RioSul, Márcio Werner, janeiro é o terceiro mês de maior movimento.

— O shopping espera receber cerca de 1,5 milhão de consumidores neste mês. Isso se deve, principalmente, ao período de férias escolares e atrações especiais no período — destacou. SEM MUDANÇA NA BANDEIRA ATÉ ABRIL


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