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Pós-verdade no investimento externo (Opinião):

Distorções no mercado de crédito explicam melhor a alta no fluxo de capitais estrangeiros diretos do que um aumento da confiança na política econômica

O Investimento Direto no País (IDP), designação já não tão nova do velho investimento estrangeiro direto (IED), bateu recordes em janeiro. De acordo com os dados divulgados no fim da semana passada, a inversão de recursos externos na economia brasileira somou US$ 11,5 bilhões – o dobro do registrado em janeiro do ano anterior. O montante superou o teto das projeções e dá indicações de que as estimativas oficiais de ingressos totais de US$ 75 bilhões, neste ano, o equivalente a quase 4% do PIB, poderão ser superadas.

Todos sabiam que boa parte desse recorde se devia a algumas operações especiais de compra por estrangeiros de empresas brasileiras, notadamente estatais do ramo de energia. Essas compras somaram US$ 8,8 bilhões, incluindo US$ 0,5 bilhão em lucros reinvertidos, enquanto outros US$ 2,8 bilhões expressaram empréstimos intercompanhias – transferências feitas entre empresas e suas filiais, dentro e fora do país.

Não se teve notícia de nenhum investimento direto do tipo greenfield, ou seja, inversão em novos negócios, ampliação/modernização da capacidade de produção ou da oferta de serviços. Mesmo assim, analistas se apressaram a sugerir que a entrada recorde de recursos externos era um reflexo do aumento da confiança na política econômica do governo. É o tipo de conclusão que se encaixa bem nas regras da pós-verdade tão em moda.

Antes dos anos 90, quando os fluxos financeiros globais eram mais regulados, investimento externo direto era aquela inversão dita produtiva, que vinha para ocupar espaços vazios nos mercados e ampliar a oferta local de bens e serviços. Vem daí a ideia de que esse é o “bom” dinheiro externo, que gera empregos e aqui finca raízes, em contraposição aos capitais especulativos e predadores que chegam, desarrumam mercados, acumulam lucros rápido e se vão como vieram, sem qualquer compromisso com o país hospedeiro.

Como observou o ex-ministro Delfim Netto, em sua coluna da “Folha de S. Paulo”, nesta quarta-feira, nem sempre “entrada de capital externo” significa “investimento”. Em janeiro, como aliás tem sido comum nos últimos anos, houve troca de controle em empresas e a entrada de empréstimos intercompanhias. Embora esses movimentos possam resultar em novos futuros investimentos, isso não é garantido. A verdade é que se devem menos a um eventual aumento na confiança em relação à política econômica do que a outros fatores bem distantes desse, caso das vantagens de captar recursos a custos baixos no exterior e aplicar aqui a juros mais altos.

A intensificação do expediente, utilizado de forma crescente não só por multinacionais com subsidiárias no Brasil, mas também por filiais no exterior de empresas brasileiras, foi descrito em detalhes pelos economistas Carlos Luque, Simão Silber e Roberto Zagha, em artigo publicado nesta segunda-feira, no jornal “Valor”. Os autores mostram que, desde 2011, um terço dos investimentos diretos são, na verdade, empréstimos intercompanhias e que estes representam dois terços do crescimento do volume da dívida externa brasileira entre 2011 e 2016, que escalou, no período, de 19% do PIB para 38% do PIB.

Citando relatórios do FMI, Luque, Silber e Zagha observam que os investimentos diretos têm sido usados mais para aumentar a liquidez das empresas do que suas inversões em ampliação da capacidade produtiva. Mais uma vez, é a diferença entre as taxas de juros de juros externas, baixíssimas, e as internas, muito altas, que comanda o jogo – um jogo que, em teoria, não deveria existir se os investimentos diretos fossem realmente destinados à ampliação ou modernização da produção e não à especulação financeira.

Não é por coincidência que os movimentos, fortemente correlacionados, de entrada e saída de capitais do mercado brasileiro – e de emergentes em geral – acompanham, numa razão inversa, o vaivém da trajetória dos juros nos Estados Unidos. Mais do que ao fato alternativo do aumento da confiança dos investidores na política econômica, o incremento de inversões externas no Brasil, em resumo, se deve a distorções no mercado doméstico de crédito e nas relações financeiras com o exterior.

José Paulo Kupfer é jornalista


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