Folha de S. Paulo

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Category : Notícias

Cardápio (Matias Spektor):

O grau de incerteza que assola as relações internacionais tem tudo para pôr o Brasil na defensiva. Mais que nunca, urge realizar um esforço de reflexão
estratégica capaz de identificar riscos, oportunidades e problemas iminentes. “Reflexão estratégica” soa como discussão diletante sobre o sexo dos anjos, mas há formas sofisticadas de realizar esse tipo de exercício com aplicação prática. Outros países usam quatro metodologias de baixo custo e alto impacto. Elas dotariam este governo (e o próximo) com instrumentos para navegar neste mar de turbulência. “Cenários Alternativos” é um modelo de estudo que identifica os caminhos mais plausíveis que o futuro pode assumir. Os analistas estabelecem os possíveis desenvolvimentos mais realistas e contrastam
os pontos fortes e fracos de cada alternativa. O exercício reduz o impacto negativo de uma surpresa estratégica. Essa tarefa seria útil para avaliar
alternativas para o Brasil diante do governo Trump e em face do regime venezuelano. “Identificação de Tendências” é um procedimento que dá à classe política e aos diplomatas os instrumentos necessários para controlar os danos causados pelas mudanças tá- ticas realizadas por terceiros países. Mapeando possíveis
surpresas e eventos inesperados de forma sistemática, criase um sistema de alerta: se X acontecer, então é provável que Y se desenvolva. Isso seria útil para fortalecer a posi- ção brasileira diante de jogadas decisivas, tão diversas como a postura dos Estados Unidos na OMC ou a renegociação do preço do gás boliviano. “Identificação de vulnerabilidades” é um exercício que busca definir os pontos nos quais a política externa brasileira apresenta mais  fragilidades. Lançando mão da chamada teoria dos jogos, avaliam-se as condições que poderiam facilitar as iniciativas diplomáticas do Brasil. Por exemplo, qual a melhor forma de tirar vantagem da enxurrada de investimento chinês na geração de energia elétrica na América do Sul? Ou qual o melhor modelo de cooperação regional no combate ao crime transnacional —atacar os nódulos centrais das redes ilegais ou começar pela base dessas redes em cada um dos países envolvidos? “Ciência de Dados aplicada à Diplomacia”. Esta metodologia utiliza softwares e outras ferramentas computacionais para processar grandes bases
de dados. No caso brasileiro, a malha diplomática produz um volume tão avassalador de informações e análises detalhadas que a maioria vai para o arquivo
sem jamais ser lida. Usando semântica computacional, a chefia do Itamaraty contaria com um primoroso conjunto de avaliações sobre os riscos e as oportunidades que se apresentam ao Brasil no mundo.Isto nunca foi feito no Brasil. Dadas as transformações globais, é hora de começar.

escreve às quintas-feiras nesta coluna.


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