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Category : Notícias

Empreiteira pagou índios e sindicalistas, diz ex-executivo:

Repasses, afirma delator, foram relativos a obras do Projeto Madeira, que inclui usinas hidrelétricas na Região Norte

O ex-executivo Henrique Valadares, um dos delatores da Odebrecht, relatou disse que a empreiteira fez pagamentos até para índios. Sob o codinome “Tribo”, líderes indígenas receberam depósitos em conta-corrente, afirmou Valadares. Os pagamentos, segundo ele, estavam vinculados a obras do Projeto Madeira, do qual fazem parte as usinas hidrelétricas de Santo Antônio e de Jirau.

O delator citou depósitos de “parcelas” de R$ 2 mil e de R$ 5 mil para integrantes da Associação dos Povos Karitianos e para a própria entidade, além de pagamentos de R$ 1,5 mil para “pequenas solicitações dos mesmos”. “Tribo. Esse cara se tornou até meu amigo, tenho até um cocar lá em casa. O chefe da tribo lá é o Antenor Karitário”, afirmou Valadares. “Pagava para ele R$ 5 mil por mês, depositado na conta da esposa.”

Uma planilha entregue por Valadares à força-tarefa da Lava Jato contém uma série de pagamentos ao codinome “Tribo”, datados de janeiro e fevereiro de 2011 e de março de 2012.

Segundo delatores, a propina total relativa à Usina de Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia, paga pela Odebrecht e pela Andrade Gutierrez, chegou a R$ 80 milhões. Apesar de ser um empreendimento encampado pelo governo do PT, a maior parte dos pagamentos foi feita a políticos do PMDB, PSDB e PP, segundo os colabo
radores da Odebrecht.

A Usina de Santo Antônio foi o primeiro grande projeto da Odebrecht como investidora no setor de energia, em meados dos anos 2000. As pretensões da empresa, na época, eram de se tornar a maior geradora do País. O modelo de negócio seria o de competir nos leilões do governo federal e fazer a obra depois, como fornecedora, onde teria maior margem de lucro.

Sindicatos. Ao Ministério Público, Valadares relatou ainda pagamentos a “Barbudos”, codinome, segundo ele, ligado a representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

“Barbudos, esse é fácil adivinhar, eu creio. Isso é para os representantes da CUT locais. A CUT foi o primeiro sindicato a chegar lá e se estabelecer. Estavam todos de olho, não tinha nada na cidade, de repente surge lá um contingente de 25 mil homens numa obra e mais tanto na outra. Os sindicatos chegam assim, que nem abelha para conquistar espaço”, afirmou. “O pessoal da CUT costumava cobrar pedágios mensais para eles não apoiarem greves, atos de violência, esse tipo de coisa.”

O delator afirmou ainda que “nem sempre caixa 2 significa pagamento de propina”. “O caixa 2 pode ser usado para outras finalidades. Festa, evento, não sei o quê e tal. Não é propina, não é dinheiro dado a agente público. Quando eles tinham um grande evento na obra, fazia uma festa. Chamava a equipe toda, servia uísque, não sei o quê”, declarou Valadares.

Defesas. A CUT disse “repudiar” a delação. “O (delator) não cita nomes de quem supostamente teria recebido propina para impedir ações sindicais”, afirmou, em nota. “A CUT não pode responder sobre acusações genéricas.”

Ninguém foi localizado para falar em nome da Associação dos Povos Karitianos.

Os partidos citados no caso da Usina de Santo Antônio negam irregularidades./ JULIA AFFONSO, FAUSTO MACEDO, LUIZ VASSALLO, RICARDO BRANDT, BRENO PIRES E FÁBIO SERAPIÃO


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