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Minha obra, minha propina:

Lava-Jato investiga nove dos 10 maiores empreendimentos do Programa de Aceleração do Crecimento, lançado em 2007.

Nove das 10 maiores obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado em janeiro de 2007 e que teve reedições em mais duas oportunidades, estão hoje sob investigação da força-tarefa da Lava-Jato. A lista exclui as reformas dos aeroportos e a construção das arenas para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas do Rio, também alvos dos investigadores. Dos empreendimentos listados, apenas o piloto de produção do campo de petróleo Lula, no Rio de Janeiro, não está sob suspeita. Levantamento feito pela ONG Contas Abertas, a pedido da Câmara Brasileira da Indústria de Construção (CBIC), mostra outro ponto assustador: dos R$ 27,8 bilhões repassados pelo governo às construtoras, R$ 4,5 bilhões entraram nos cofres da Odebrecht, a empreiteira que está dinamitando a República.

“Parafraseando Milton Nascimento, a corrupção vai onde o dinheiro está. E, nos últimos anos, ele (o dinheiro) estava nas grandes obras do PAC, nos investimentos em infraestrutura”, disse Gil Castello Branco, presidente da OnG Contas Abertas. O PAC foi a grande vitrine do segundo mandato do ex-presidente Lula. A primeira versão foi apresentada em uma cerimônia com pompa no Palácio do Planalto, no dia 22 de janeiro de 2007, com investimentos previstos totais de R$ 503,9 até 2010, sendo R$ 67,8 bilhões do Orçamento do Governo Central e R$ 436,1 bilhões, de estatais e da iniciativa privada.

Em seu discurso na cerimônia do PAC, Lula, sobrevivente da crise do mensalão e recém-empossado para o segundo mandato, fez um dos seus tradicionais discursos ufanistas. “É tempo de ampliarmos ainda mais a nossa esperança no Brasil. Na verdade, o Brasil é um dos países que não deram margem nos últimos tempos à perda de esperança. Mesmo aquelas pessoas que, por precipitação emocional ou volúpia interesseira, viram em problemas passageiros alimento para uma retórica da desesperança, mesmo elas não tiveram combustível para prosperar em seu pessimismo”, disse o petista à época.

“Havia a intenção do governo de aquecer a economia, destravando os investimentos em infraestrutura. Mas, por outro lado, isso acabou estimulando o que estamos vendo. Onde existe obra, existe corrupção”, afirmou Castello Branco. A professora de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) Sônia Fleury Filho também não acredita que o PAC foi criado apenas para estimular a corrupção e transformar-se em um mecanismo de arrecadação de propina para financiar campanhas eleitorais. “O problema é que, depois que programas como esse são lançados, acabam mergulhando em escândalos de corrupção. Como o próprio Emilio (Odebrecht) disse em sua delação, essa prática era generalizada e acontece há décadas”, acrescentou.

O professor emérito da UnB David Fleischer é menos otimista que Sônia, ao lembrar o consórcio de interessados que se formou ao redor das obras do PAC, composto por empreiteiras, funcionários públicos e grandes partidos, como o PT e o PMDB. “Poderia até impulsionar a economia, mas tinha interesses políticos e eleitorais, tanto que Dilma foi eleita com a alcunha de mãe do PAC”, disse David. Gil tem uma proposta ainda mais radical. Para ele, não apenas o PAC está com uma nuvem sobre si, mas todas as grandes obras feitas pelas empreiteiras que estão sob investigação do juiz Sérgio Moro e do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin. “Nenhum delas agia por caridade com a classe política ao pagar as propinas. O superfaturamento incluía o lucro que as empresas queriam e o dinheiro que deveria ser repassado aos agentes políticos”, justificou o presidente do Contas Abertas. O economista afirma que, com isso, o país perdeu a referência de quanto custa uma grande obra. “A gente até desconfiava de que algumas coisas estavam erradas, como o Estádio Nacional de Brasília (Mané Garrincha), considerado um dos mais caros do mundo. Mas as coisas saíram do controle.”


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