Valor Econômico

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Category : Notícias

Ajuste no ritmo de produção:

Depois de enfrentarem forte queda na demanda, fabricantes de equipamentos avaliam que o pior já passou e apostam em uma retomada das encomendas

Inaugurada em 2015, com investimento de 20 milhões de euros, a fábrica da Wärtsilä no complexo do porto do Açu, no Rio de Janeiro, está em “hibernação” desde o ano passado. Suspender as atividades sem fechar a planta foi a saída que a companhia finlandesa encontrou diante das indefinições do projeto Sete Brasil – empresa de sondas petrolíferas -, que entrou em recuperação judicial e com a qual tinha fechado contratos para a venda de 60 grupos de motogeradores e 60 propulsores azimutais para dez sondas a serem construídas nos estaleiros Jurong Aracruz e Ecovix.

Em outro segmento, o da festejada energia eólica, a situação também preocupa. A redução da contratação de potência no período 2015/16 e a suspensão do 2° Leilão de Energia de Reserva (LER) de 2016 vêm esvaziando o chão de fábrica dos fornecedores de equipamentos, levando-os a reajustar sua capacidade de produção enquanto esperam um novo leilão.

Produzir equipamentos para o mercado de energia no atual cenário político econômico tem exigido resiliência das empresas, sejam elas especializadas em componentes para fontes específicas de energia ou fornecedoras de soluções para vários segmentos. “A economia não cresceu o que deveria; a demanda por energia foi menor que o esperado nos últimos dois anos e houve poucos leilões, com baixa quantidade de novos projetos”, diz o diretor-superintendente da WEG Energia, Eduardo de Nóbrega. A situação, segundo ele, afetou a receita da multinacional brasileira em 2016. Depois de um crescimento de 60% em 2015, resultado do início das entregas dos sistemas de geração eólica, a receita da área de negócios que produz equipamentos para geração, transmissão e distribuição de energia (GTD) – e que em 2016 representou 30,4% da receita líquida da WEG – fechou o ano com queda de 2,8%.

Os contratos de ciclo longo característicos no fornecimento de equipamentos para energia mantêm completa a carteira eólica da WEG até o primeiro trimestre de 2018. “No ano passado, tínhamos encomendas para cumprir planos de receita – os projetos vendidos entre 2013 e 2015 -, mas em 2016 o volume de entrada de pedidos foi fraco. Neste ano, as encomendas só poderão aumentar se o planejado leilão de descontratação de energia de reserva acontecer”, diz Nóbrega.

Neste cenário, segundo ele, o mercado de equipamentos para geração de energia pode se normalizar a partir de 2018. Na área de equipamentos para transmissão e distribuição o otimismo é maior, resultado dos leilões feitos no ano passado e dos que estão previstos para breve. “Há necessidade e disposição para investir se as condições forem adequadas”, afirma Nóbrega, que destaca a importância das exportações da empresa para compensar o recuo no mercado interno.

A dinâmica no segmento de transmissão também vem fazendo a suíça-sueca ABB, especializada em tecnologias de energia e automação, a fortalecer sua atuação no fornecimento de soluções para a área. Há 105 anos no país, a empresa registrou nos últimos três meses de 2016 um aumento de 36% no volume de encomendas na área em relação ao mesmo período de 2015. No início deste ano, fechou contrato de US$ 75 milhões para fornecer 14 transformadores conversores de corrente contínua para o segundo linhão da hidrelétrica de Belo Monte, que está sendo construído pela chinesa State Grid. “Temos conseguido manter nosso volume de produção, o que é significativo diante dos problemas do país”, diz o vice-presidente da ABB, José Paiva.

Segundo ele, a companhia tem uma visão positiva da recuperação da economia, principalmente na área de infraestrutura e transportes e está otimista com as oportunidades na área de transmissão, com os leilões realizados em novembro do ano passado e em abril deste ano. A empresa também espera crescer no mercado de energias renováveis, especialmente a eólica e a solar. “Temos o maior portfólio de soluções necessárias entre os momentos de conversão (da energia mecânica gerada pelo vento em energia elétrica) e de conexão na rede e temos projetos para fontes renováveis”, diz Paiva.

Outra empresa preparada para engrossar a cadeia produtiva das fontes renováveis é a Gerdau. Ela inaugurou em março sua usina de aço especial de Pindamonhangaba (SP), empreendimento nascido da joint venture formada pela Gerdau Summit e as japonesas Sumitomo Corporation e Japan Steel Works. Da usina sairão peças para a geração de energia eólica – eixos para aerogeradores e anéis de rolamento por parte da joint venture e o vergalhão que é fabricado em várias unidades da Gerdau, bem como as chapas grossas que a empresa começou a produzir na usina de Ouro Branco (MG) em 2016. A joint venture vai investir R$ 280 milhões até 2020 para a aquisição de máquinas e equipamentos para a operação.

É para projetos desse porte que a presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Elbia Silva Gannoum, chama a atenção. “Isso mostra que o setor é atrativo e há disposição para investimento”, afirma. Segundo ela, a associação tem mostrado ao governo a força e a competência da cadeia produtiva criada para a geração de energia eólica. “Hoje, as seis maiores fabricantes mundiais de equipamentos estão no país e atingimos um grau de nacionalização de 80%.” Ela lembra que o cancelamento do leilão de 2016 levou muitos fabricantes a ajustar sua capacidade de produção, diante da ameaça de pátios cada vez mais vazios. Para Elbia, só a realização de leilões em 2017 poderá evitar a desestruturação dessa cadeia. Nas contas do setor, por trás de um aerogerâdor há cerca de mil fornecedores de componentes. A área de energia eólica chegou ao fim de 2016 com 10,74 GW de capacidade instalada em 430 parques, representando 7% da matriz.

Na GE, a demanda por soluções para fontes mais limpas e renováveis de geração de energia tem sido grande. Em fevereiro, a companhia firmou contrato com a Companhia de Renováveis (CER) para o fornecimento de 82 aerogeradores para a segunda etapa do Complexo Eôlico Assuruá, localizado na Bahia, incorporando 205 megawatts de capacidade instalada no complexo. A GE também será responsável pela operação e manutenção dos equipamentos por um período de cinco anos. “Ainda que a redução na contração de projetos e o cancelamento de leilões de energia renovável de reserva tenham abalado a confiança do mercado brasileiro, a GE mantém forte atuação, porque planeja suas atividades em longo prazo e possui diferentes negócios na área de energia”, diz Gilberto Peralta, presidente e CEO da GE para o Brasil.

Um dos maiores contratos da empresa, fechado em outubro de 2016, porém, entrou em outra área de negócios da companhia: a Centrais Elétricas de Sergipe SA (Celse) fez um pedido completo, avaliado em mais de US$ 900 milhões, para a construção da usina de energia de ciclo combinado de Porto de Sergipe. Com uma capacidade de geração de 1.516 MW, a instalação será a maior usina a gás na América Latina. Terá três turbinas a gás HA da GE e uma turbina a vapor, além de um gerador de recupéração de calor e outros equipamentos.

O contrato também inclui um sistema de transmissão fornecido por completo pela GE Energy Connections. Em janeiro deste ano, o contrato com a Celse foi estendido e agora inclui soluções de operação, manutenção e segurança cibernética. A empresa tem apostado ainda nas pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). Segundo Peralta, a empresa acredita em um processo de normalização da economia a partir deste ano. Entre as oportunidades de crescimento estão o leilão de transmissão, realizado neste mês, e a possibilidade do leilão de descontratação. “Mesmo em um cenário desafiador, a situação econômica deve melhorar lentamente e incentivar os mercados de produção de equipamentos e de geração de energia. É preciso ter em mente que qualquer momento de instabilidade econômica é passageiro e que projetos em infraestrutura só são viabilizados havendo uma visão de longo prazo.” É também no que acredita Luiz Felipe de Carvalho, gerente de desenvolvimento de negócios de energia da
Wãrtsilâ no Brasil. Com mais de 180 anos de história e há 20 anos no Brasil, a fabricante de sistemas de geração para plataformas de petróleo e termelétricas, que em 2016 faturou 5,029 bilhões de euros no mundo, ficou conhecida pelas usinas termelétricas que projetou e construiu no país. Foram 29 projetos, que geram mais de 2.500 MW em 14 cidades, entre os quais a maior usina que a empresa construiu no mundo, a Termelétrica Suape II, em Pernambuco, que começou a operar em 2011.

Apesar das indefinições acerca dos projetos com a Sete Brasil, que determinaram a hibernação da fábrica do Rio de Janeiro, a empresa avança na área de energias renováveis. “Nos posicionamos como provedores de soluções completas”, diz Carvalho. A empresa, afirma ele, está preparada para oferecer ao país projetos solares como os vendidos à Burquina Faso, na África (15 MWp solar combinados com uma instalação térmica existente de 55 MW térmico), e à jordânia (46 MWp solar combinados com uma instalação térmica de 250 MW). Contratos como o assinado em 2016 para o fornecimento de equipamentos à Imetame Energia, para a UTE Prosperidade, em Camaçari (BA), também dinamizam os negócios da companhia. “Apostamos em bons negócios no segundo semestre”, diz Carvalho.

Na Tenaris, líder global no fornecimento de tubos de aço carbono para a indústria de petróleo e gás, o controle de custos ajudou a enfrentar a queda na demanda do setor. Foi, porém, o investimento de US$ 370 milhões feito nos últimos cinco anos na planta para a produção de tubos de grande diâmetro e com alta espessura de parede que permitiu à empresa buscar no mercado externo as oportunidades que minguaram no país. “Hoje, 90% da carteira de projetos é para exportação”, diz Idarilho Nascimento, diretor comercial da empresa no Brasil. Segundo ele, no curto prazo o mercado não deve mudar,
mas as perspectivas no longo prazo são positivas. “A reestruturação em curso no setor de petróleo no país, o ingresso de novos players na exploração do petróleo e os desinvestimentos da Petrobras vão dar uma nova dinâmica ao mercado.”


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