Fundos de pensão constroem empresas consolidadoras na cadeia de óleo e gás, logística e saneamento
Das mesas dos executivos do mercado financeiro que administram recursos de fundos de pensão saem desenhos de companhias em todas as áreas de infraestrutura. Algumas delas estrearão seus respectivos setores na bolsa de valores. O ritmo dos investimentos dos fundos de priva te equity (que compram participações em empresas fechadas para estimular seu crescimento e vendê-Ias depois) é frenético. A saída rápida da economia brasileira da crise financeira internacional, os gigantescos investimentos para exploração do petróleo na camada pré-sal e a preparação do país para receber a Copa do Mundo e a Olimpíada animaram os negócios.
Um estímulo fundamental às aquisições ou criação de empresas do zero é o amadurecimento do mercado de capitais brasileiro. Agora, os fundos estão mais seguros de que os investimentos feitos hoje terão uma porta de saída nas bolsas nos próximos anos. "Sabemos que não vamos depender de raras janelas de oportunidade", afirma Nelzon Rozental, executivo da BRZ que administra recursos das fundações na área com a experiência de quem já presidiu a empresa de participações do BNDES. A expectativa de demanda é boa. "Os investidores estrangeiros reclamam da falta de ações de infraestmtura para comprar no Brasil", diz Paulo Sérgio Dortas, sócio da Ernest & Young, depois de uma semana de reuniões com administradores de grandes carteiras em Nova York.
O potencial de criação de companhias consolidadoras, futuras blue chips, é imenso. O Brasil tem, por exemplo, 70 mil empresas de serviços da cadeia de óleo e gás. Excluindo operadoras, representadas na Bovespa pela Petrobras e OGX, a presença de companhias de serviços de petróleo é mínima na bolsa nacional. Apenas 1 % do faturamento da cadeia de serviços é obtido por companhias de capital aberto, enquanto o percentual é de 30% nos Estados Unidos e supera 80% na Noruega.
A gestora AG Angra está concluindo o investimento de R$ 700 milhões de seu primeiro fundo de infraestrutura com recursos de fundações e deve anunciar em breve a compra de uma participação numa companhia portuária. De olho no setor de óleo e gás, já prepara a captação de uma segunda carteira de private equity, com patrimônio entre R$ 800 milhões e R$ 1 bilhão que investiria preferencialmente na cadeia petrolífera e em portos. Hamilton Agle, sócio da AG Angra, diz que uma das empresas que podem servir de plataforma de consolidação é a GeoRadar, prestadora de serviços à cadeia petrolífera focada em sísmica, na qual o fundo tem participação de 50% em sociedade com o fundador. A GeoRadar teve crescimento exponencial nos últimos cinco anos, saltando de R$ 10 milhões para R$ 200 milhões de faturamento.
Um setor ainda inédito nas bolsas, de saneamento ambiental e gestão de resíduos, já tem duas empresas de porte razoável sendo montadas pelos fundos de priva te equity. Gustavo Peixoto, gestor do InfraBrasil, do Santander, está entusiasmado co~ os resultados da Haztec, que cresceu vertiginosamente em dois anos com sete aquisições comandadas pelo fundo. O faturamento da companhia, que tem aterros sanitários, tratamento de efluentes, consultoria ambiental e uma fabricante de equipamentos, saltou de R$ 70 milhões para R$ 450 milhões em apenas dois anos. É uma das candidatas à abertura de capital. "Queremos que ela amadureça e atinja o patamar de R$ 1 bilhão", diz Peixoto. O lnfraBrasil tem 30% da companhia, o banco de investimentos do Bradesco, 30%, e o empreendedor Paulo Tupinambá, 40%. A "concorrente" é a Resicontrol, em sociedade com a Estre Ambiental, do empresário Wilson Quintella. A companhia atua em gestão de resíduos industriais e biorremediação e é dona de ativos que pertenciam à francesa Veolia no Brasil.
Com patrimônio de R$ 950 milhões aplicados preferencialmente em empresas de energia (ver tabela), o primeiro desinvestimento do InfraBrasil será a geradora Renova Energia, que controla pequenas centrais hidrelétricas e geração eólica. A companhia, que foi a maior vendedora de energia eólica no leilão do governo federal em dezembro, pediu em janeiro à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) autorização para fazer uma oferta de ações. A vitória no leilão garante um fluxo futuro de receita, embora seus projetos ainda não tenham entrado em operação.
A área portuária é outra muito movimentada. O BRZ Logística, que administra recursos de fundações, BNDES e Banco do Brasil, está construindo em Itapoá, Santa Catarina, o porto com maior calado operacional do Sul do país, de 16 metros, em associação com a AliançafHamburg Süd e a fanúlia Battistella. A intenção é que o Tecon Santa Catarina, que começa a operar no segundo semestre, funcione como um centro redistribuidor de carga, recebendo navios de grande porte (cinco mil contêineres), cuja carga será transferida para embarcações menores dirigidas a outros portos da região. O mesmo fundo tem participações em outros dois portos em São Francisco do Sul, também em Santa Catarina: um terminal graneleiro "greenfield" (construído do zero) e a expansão do terminal portuário existente. O fundo da BRZ envolve-se diretamente na gestão dos investimentos: seu consultor, José Eduardo Carvalho, com décadas de experiência no setor, supervisiona, por exemplo, a seleção e compra de equipamentos. A AG Angra deve anunciar seu primeiro investimento na área em breve, com a compra de participação de companhia que integra as operações portuária e retroportuária.
Quatro empresas de operação portuária já estão listadas nas bolsas: a Santos Brasil, do porto de Santos; a Wilson Sons, que opera terminais portuários na Bahia e Rio Grande do Sul, um estaleiro e serviços de rebocagem marítima; a log-In (nascida da atividade logística da Vale), que opera terminal portuário, transporte de contêineres, navegação costeira e transporte ferroviário; e a LLX Logística, companhia do empresário Eike Batista que está construindo os portos de Açu e Sudeste. Apesar disso, ainda há muitas oportunidades na área, afirma Miguel Noronha, sócio da AG Angra. "É flagrante a inexistência de um operador independente de portos no país, com operações de extensão nacional." Em sua opinião, o investimento no setor ficaria mais fácil e a concorrência aumentaria rapidamente se fosse permitido aos terminais que operam carga própria receber também carga de terceiros - permissão que provoca polêmica no setor.
Embora o setor portuário esteja efervescente, os executivos da AG Angra acham difícil que outros empresários consigam replicar o modelo de Eike Batista de abrir o capital de empresas pré-operacionais como a llX Logística e agora a OSX, que construirá um estaleiro em Santa Catarina. "Acho que a operação da llX foi feita num momento de exuberância do mercado e dificilmente será replicada, mesmo após a superação da crise", diz o presidente da AG Angra, Ricardo Bisordi, que já foi diretor financeiro da Camargo Correa. Batista conquista o investidor contratando executivos de peso, como muitos diretores da Petrobras e da Vale, para suas empresas OGX e MMX.
O mais provável é que no setor de portos ainda ocorram grandes movimentos de consolidação envolvendo players estratégicos antes da abertura de capital. Agle, da AG, vê um fenômeno parecido com a revolução dos últimos anos no setor de açúcar e álcool, completamente transformado pelo investimento de grandes empresas, nacionais e múltis, que concentraram operações e extinguiram o modelo familiar.
O fundo da BRZ, foca do exclusivamente em 10glStica, também está investindo em empresas com serviços diferenciados na cadeia. Comprou em dezembro parte da Standard LogIStica, empresa especializada em transporte de carga perecível em contêineres frigormcos. A miríade de companhias montadas pelos fundos de pensão, entretanto, pode encontrar concorrentes nas bolsas de grupos tradicionais na construção pesada e infraestrutura. O grupo Odebrecht, por exemplo, já afirmou que avalia a abertura de capital de algumas de suas subsidiárias, e a necessidade de capital para grandes obras como novas hidrelétricas pode provocar iniciativas semelhantes no setor.
O que os priva te equities trazem de melhor é um choque de governança a um dos setores tradicionalmente mais opacos da economia. As aquisições são feitas por meio de Fundos de Investimento em Participações (FIP). Isso exige que as companhias transformem-se em sociedades anônimas e divulguem informações financeiras detalhadas, ainda que não tenham ações listadas em bolsa.
As negociações incluem cláusulas com padrões mínimos de governança e alternativas predefinidas de saída dos investidores financeiros da companhia em prazos determinados. Em geral, os contratos incluem não apenas a anuência do empreendedor para futura venda de ações em bolsa, mas também cláusulas de "drag along", que dão ao minoritário as mesmas condições de preço oferecidas ao controlador em caso de venda para um investidor estratégico.
"As cláusulas de governança são muito mais difíceis de negociar que o preço, ferem susceptibilidades", diz Ricardo Propheta Marques, da BRZ. Em geral, os fundos de private equity têm o direito de indicar membros do conselho de administração ou o diretor financeiro. São normais também restrições a contratos com partes relacionadas e proteção dos acionistas contra contingências. "Essa é uma das razões pelas quais os fundos de pensão gostam de investir em FIPs. Os problemas não 'sobem' para a carteira do fundo", diz Rozental. Os gestores também poupam o tempo da diretoria das fundações quando o investimento numa empresa não dá certo.
O único problema dos FIPs, até agora, tem sido a proibição para que esses fundos comprem instrumentos de dívida ou de em garantias para empréstimos, o que dificulta os financiamentos de projetos "greenfield".
O assunto está sendo discutido pela Associação Brasileira de Venture Capital e Priva te Equity (ABVCap) e Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) com o governo. Uma das ideias é usar o seguro-garantia em financiamentos dos projetos, mas ainda não há consenso entre os agentes de mercado, seguradoras e bancos sobre as características dessa apólice. Só conseguem exceções fundos que são devedores de crédito, como o InfraBrasil, que recebeu um empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
As empresas de infraestrutura apresentam ainda um desafio adicional na sua preparação para entrada no mercado de capitais: o vencimento de concessões de serviços públicos das companhias operacionais. "Hoje a melhor alternativa é abrir o capital de holdings que controlam várias operadoras, assim não se cria a dependência de um único contrato de concessão com riscos de não renovação", diz Ricardo Bisordi, da AG Angra. Isso foi avaliado, por exemplo, na abertura de capital da CCR, quando se pensou em colocar na bolsa ações da concessionária Nova Dutra, em vez da holding.
Outra questão refere-se ao "engessamento" nas estratégias de mercado de capitais por exigências das agências reguladoras em relação aos concessionários. A exigência de blocos de controle definidos e préaprovados, com fatias acionárias mínimas, toma difícil que concessionárias aumentem sua dispersão acionária ou migrem para segmentos de governança corporativa como o Novo Mercado da bolsa paulista. Um exemplo é a companhia ferroviária Ali, que gostaria de fazer essa migração, mas não é autorizada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).